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Série documental indígena sobre identidade estreia na TV Brasil

Projeto Gente de Verdade retrata preservação cultural do povo Paiter Suruí em série inédita.

22/04/2026 às 21:55
Por: Redação

A série documental Gente de Verdade, cujo protagonismo é exercido por indígenas, foi contemplada pela chamada pública Seleção TV Brasil. O projeto acompanha a trajetória de membros do povo Paiter Suruí, grupo amazônico dedicado à preservação da memória coletiva e da identidade própria, e será exibido em rede nacional.

 

A iniciativa faz parte das produções selecionadas pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), viabilizadas por meio de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Os projetos escolhidos pertencem ao Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), coordenado pelo Ministério da Cultura e a Agência Nacional do Cinema (Ancine).

 

Em fevereiro, a EBC divulgou o resultado da chamada pública Seleção TV Brasil, totalizando 39 produções aprovadas. O investimento global totaliza 109.889.224,78 reais, valor considerado o maior já destinado pelo Estado brasileiro à produção de conteúdo audiovisual voltado à televisão pública.

 

Selecionada na categoria Sociedade e Cultura, Gente de Verdade integra um grupo que reúne sete outras produções. A série é ambientada na Terra Indígena Sete de Setembro, região localizada entre Rondônia e Mato Grosso, onde reside o povo Paiter Suruí. O primeiro contato desse grupo indígena com não indígenas aconteceu há pouco mais de cinquenta anos.

 

Desde então, a população Suruí vivenciou profundas transformações, com a redução do espaço para práticas tradicionais, a substituição de pajés por igrejas, o abandono de rituais e o esquecimento progressivo da língua Tupi Mondé pelas gerações mais jovens.

 

Ao longo de oito episódios de 26 minutos, a produção acompanha quatro protagonistas de três faixas etárias: Ubiratan, Agamenon, Celesty e Kennedy. Todos percorrem um caminho de resistência cultural, enfrentando pressões provenientes do avanço da fé cristã, do cotidiano urbano e da crescente inserção das novas tecnologias. Temas como ancestralidade, pertencimento e os desafios de equilibrar tradição e modernidade são debatidos ao longo da narrativa.

 

O diferencial do projeto reside no fato de que a condução da história é feita pelos próprios indígenas, oferecendo uma perspectiva interna sobre a realidade Suruí. Um dos motes centrais do enredo é a descoberta de um acervo visual produzido por um fotógrafo alemão durante o primeiro contato com o homem branco nos anos 1970. Essas imagens originam discussões sobre memória, espiritualidade e identidade, levantando questões como a possibilidade de resgatar esses registros visuais sem contrariar crenças religiosas ou costumes que proíbem a menção aos mortos.

 

“Esse gesto reforça a relevância da comunicação pública para dar visibilidade a vozes historicamente silenciadas. É um projeto potente que posiciona no centro histórias que por muito tempo foram invisibilizadas e que dá protagonismo a quem vive essas experiências. A série amplia o olhar sobre os povos indígenas com sensibilidade e profundidade, a partir da força do audiovisual em provocar reflexão e ampliar a compreensão sobre diferentes realidades”, comenta Antonia Pellegrino, que coordenou a Seleção TV Brasil à época em que era diretora de Conteúdo e Programação da EBC.


 

Indígenas conduzem produção audiovisual

 

O projeto Gente de Verdade valoriza o trabalho de criadores indígenas em todas as etapas. A direção da série é responsabilidade de Ubiratan Suruí, cineasta que integra o próprio povo retratado, enquanto o roteiro foi elaborado por Natália Tupi, também cineasta e fotógrafa de origem indígena. A proposta prioriza narrativas construídas a partir das vivências diretas dos territórios, sem mediação externa.

 

Segundo Ubiratan Suruí, a autenticidade da produção decorre do fato de ser conduzida por quem faz parte da própria comunidade. Ele afirma que a autonomia e o protagonismo são elementos fundamentais.

 

“Gente de Verdade nasce do nosso próprio olhar. Por muito tempo, as histórias sobre os povos indígenas foram contadas por outros, de fora. Aqui, não. Somos nós que contamos. Quando a gente coloca nossas próprias narrativas no centro, a gente fortalece nossa autonomia, nossa identidade e mostra a diversidade que existe entre os nossos povos. São histórias reais, de agora, longe dos estereótipos. A gente se apresenta como realmente é: povos vivos, com voz, com pensamento, com futuro — não como personagens do passado.”, ressalta.


 

O diretor ainda destaca a importância de levar a obra a uma emissora pública e de alcance nacional.

 

“Ver uma obra indígena sendo exibida na TV Brasil é um avanço muito importante. Por ser um canal público e de alcance nacional, abre espaço para que mais pessoas conheçam nossas histórias. Isso ajuda a criar diálogo, respeito e reconhecimento. Quando a gente ocupa esse espaço, a gente quebra a invisibilidade e faz com que o Brasil escute, de verdade, as vozes dos povos originários”, complementa Suruí.


 

Acervo e exposição fortalecem memória Suruí

 

No ano anterior, o Instituto Moreira Salles (IMS) promoveu a exposição Paiter Suruí, Gente de Verdade, em São Paulo. A mostra apresentou 800 fotografias captadas desde os anos 1970, período em que as primeiras câmeras foram levadas à Terra Indígena Sete de Setembro. A exposição permitiu um mergulho nas histórias, tradições, afetos, cotidiano e resistência do povo Suruí. O conteúdo segue disponível para consulta no site do IMS.

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