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Geógrafo Milton Santos: 100 Anos de Análise Crítica das Desigualdades

Geógrafo negro redefiniu o entendimento do espaço urbano e inspirou estudos sobre exclusão social globalmente.

03/05/2026 às 13:44
Por: Redação

A memória do geógrafo Milton Santos, cujo centenário de nascimento se celebra em 3 de maio, permanece viva e crucial para entender as dinâmicas de exclusão e desigualdade nas cidades brasileiras e globais. Suas teorias, formuladas na década de 1970, continuam a oferecer ferramentas para interpretar cenários contemporâneos, como o contraste entre grandes redes de supermercados e feiras populares em São Luís, no Maranhão, que se adaptam à realidade de quem possui poucos recursos.

 

Essa disparidade nos modos de consumo e tipos de estabelecimentos urbanos foi o foco de estudo de Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP) e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). A pesquisadora utilizou o arcabouço teórico de Milton Santos para analisar essas manifestações de desigualdade socioeconômica.

 

Teoria dos Circuitos Urbanos e a Realidade da Periferia

Milton Santos propôs uma divisão da economia urbana em dois circuitos distintos. O circuito superior é caracterizado por grandes empresas, alta tecnologia, capital intensivo e organização complexa. Em contrapartida, o circuito inferior abrange pequenos comércios e serviços, com menor acesso a recursos, mas que demonstram grande capacidade de adaptação às necessidades da população.

 

“É muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir. As populações que vivem na periferia abrem seus próprios comércios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas”, afirma Livia Cangiano.

 

Ela ilustra a adaptabilidade do circuito inferior com um exemplo prático: “Para dar um exemplo, nesse circuito inferior, pensando em alimentação, é o lugar onde a pessoa que não consegue comprar a dúzia do ovo, consegue comprar um ovo apenas. Eles vendem separadamente. As formas de comércio são menos endurecidas do que em uma grande rede supermercadista, onde só seria possível comprar a dúzia”.

 

A relevância das ideias de Milton Santos transcende as fronteiras brasileiras, sendo aplicada em pesquisas internacionais. O projeto do qual Livia Cangiano participa estuda as dinâmicas urbanas em Gana, na África, e em metrópoles europeias como Londres e Paris, utilizando os conceitos desenvolvidos pelo geógrafo.

 

Vida e Obra de um Pensador Negro

Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, Bahia, em 3 de maio de 1926. Ele se consolidou como uma das figuras mais proeminentes da geografia global, obtendo seu bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutorado na Universidade de Strasbourg, na França. Durante o período da ditadura militar no Brasil, ele viveu no exílio, lecionando em diversas universidades na Europa, África e América Latina. Ao retornar ao país, continuou sua prolífica produção intelectual, atuando como professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade de São Paulo (USP).

 

Enquanto intelectual negro, Milton Santos enfrentou o racismo estrutural dentro do ambiente acadêmico. Sua vasta obra redefiniu a compreensão do espaço geográfico, integrando aspectos econômicos, políticos e sociais. Ele se tornou uma fonte de inspiração para outros pensadores negros, incluindo a geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

 

“Eu sou uma mulher negra de 60 anos. Entrei na UFRJ na década de 80, onde a maior parte dos meus colegas na universidade não eram negros. Então, o Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana”, relata Catia.

 

A professora destaca que, embora a obra de Milton Santos não tivesse a negritude ou a dimensão política da relação entre classe social e raça como temas centrais, ele construiu uma teoria social crítica das desigualdades que se mostrou valiosa para a análise das questões raciais. Além disso, ele nunca se esquivou de se posicionar publicamente sobre o tema quando necessário.

 

“Ele dizia que o fato de ser um professor universitário não o impediu de viver experiências de racismo. Falava que os negros precisavam ter um esforço muito maior para o seu trabalho ter legitimidade. Mas ele nunca utilizou qualquer vitimização para se tornar um intelectual.”

 

O Espaço como Expressão do Poder

Além da teoria dos circuitos urbanos, Milton Santos desenvolveu outras ideias que aprofundaram o entendimento das desigualdades. Para ele, o espaço geográfico não é meramente um pano de fundo para a vida, mas sim o resultado direto de decisões políticas e econômicas. Isso implica que a distribuição desigual de infraestrutura nas cidades – incluindo saneamento, transporte e acesso à internet – não é fortuita, mas sim fruto de escolhas que beneficiam certos grupos e regiões.

 

Ao observar uma periferia desprovida de serviços essenciais ou uma área valorizada com alta concentração de investimentos, o geógrafo instiga a ver não um mero acaso, mas a concretização de relações de poder. A geógrafa Catia Antonia da Silva complementa essa visão, explicando que “Milton traz essa compreensão de uma geografia historicamente produzida pelos grandes aparatos do Estado. À medida que o capitalismo avança, processos de industrialização e urbanização no Brasil vão produzir desigualdades e destruição das economias locais. Seja do Nordeste, da Amazônia ou do interior dos estados. Determinados grupos sociais serão beneficiados pelo processo de modernização”.

 

Em sua obra Por uma outra globalização, Milton Santos descreve como um sistema que se apresenta como promessa de integração e progresso, na prática, aprofunda as desigualdades em escala mundial. Grandes projetos de infraestrutura, como portos e corredores logísticos, embora conectem países e mercados, também reorganizam os territórios locais, exercem pressão sobre comunidades e intensificam a concentração de riqueza.

 

Outro conceito fundamental do autor, o “meio técnico-científico-informacional”, detalha como a tecnologia, a ciência e a infraestrutura se tornaram elementos centrais na conformação do território. Na prática, isso se manifesta na coexistência de regiões altamente conectadas, com redes digitais avançadas e logística eficiente, ao lado de áreas que carecem de serviços básicos. Enquanto alguns espaços são moldados para atender às demandas do mercado global, outros são deixados à margem desse processo.

 

Caminhos para a Transformação

Apesar de seus diagnósticos críticos sobre as desigualdades, Milton Santos também apontou para a possibilidade de transformação. Ele defendia a ideia de que as mesmas redes e tecnologias que contribuem para o aumento das disparidades poderiam ser apropriadas pelas populações locais para desenvolver alternativas econômicas e sociais. Para o autor, iniciativas comunitárias, a utilização de tecnologia em áreas periféricas e a organização por meio de cooperativas são exemplos de como o território pode se converter em um espaço de resistência e reinvenção.

 

“Ele propõe uma leitura sobre o território brasileiro, trazendo ferramentas para que a gente pense concretamente nas desigualdades, que não fique apenas no plano teórico, mas que nos induza a ir a campo, a conversar com essas pessoas, a entender o cotidiano delas no espaço”, explica a geógrafa Livia Cangiano.

 

Ela acrescenta que a proposta de Santos para a compreensão do espaço é “muito generosa”, pois convida a “pensar o quanto a periferia urbana brasileira como um todo é capaz de produzir outras racionalidades de existência”.

 

Celebrações do Centenário

O centenário de nascimento de Milton Santos será comemorado com uma série de eventos em diversas partes do país. As programações, realizadas em formato híbrido, reunirão pesquisadores, ativistas e o público em geral para refletir sobre o legado e a atualidade de sua obra.

 

Entre os dias 4 e 8 de maio, a USP sediará o Seminário Internacional Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21, com transmissão virtual. Este encontro é fruto de uma colaboração com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB).

 

No Rio de Janeiro, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) do Sesc organizará um ciclo de palestras dedicado ao geógrafo, que acontecerá ao longo do mês de maio.

 

A Universidade Federal do Tocantins também contribuirá para as celebrações, promovendo o evento Tocantins como Fronteira do Meio Técnico-Científico-Informacional. A iniciativa, que ocorrerá entre 26 e 29 de agosto, visa debater, em âmbito internacional, o pensamento e a obra de Milton Santos.

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