Durante entrevista publicada pelo jornal espanhol El País em 16 de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez críticas contundentes à conduta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, especialmente no que diz respeito à relação com Irã, Cuba e Venezuela. Lula afirmou que a comunidade internacional não concede à Casa Branca o direito de ameaçar países dos quais discorda em questões diplomáticas ou políticas.
“O Trump não tem o direito de acordar de manhã e achar que pode ameaçar um país. Não tem direito. Ele não foi eleito para isso. O mundo não lhe dá direito disso. A Constituição americana não garante isso. E muito menos a carta da ONU [Nações Unidas]”, afirmou Lula.
O presidente brasileiro também comentou sobre as ações de Trump que, na semana anterior à entrevista, ameaçou cometer genocídio contra o Irã caso o país persista em rejeitar os termos americanos para o encerramento do conflito no Oriente Médio.
Ainda na conversa com o veículo espanhol, Lula salientou a necessidade de lideranças políticas mundiais que assumam o compromisso de lembrar que o planeta não pertence a um único país e destacou que mesmo as nações mais influentes devem demonstrar maior responsabilidade pela manutenção da paz global.
“Nenhum país tem direito de ferir a integridade territorial de outro país. Nenhum país tem o direito de não respeitar a soberania dos outros países”, completou Lula.
Segundo o presidente, está em falta a disposição dos principais líderes mundiais em agir com responsabilidade diante do cenário internacional, ressaltando que a importância de determinada nação não a isenta de contribuir para a paz.
Durante a entrevista, Lula abordou o risco de uma terceira guerra mundial em decorrência da política intervencionista adotada pelo governo Trump. Para ele, o impacto caso um novo conflito dessa magnitude venha a acontecer seria muito superior às consequências da Segunda Guerra Mundial.
“Uma terceira guerra mundial será uma tragédia dez vezes mais potente do que foi a tragédia da Segunda Guerra Mundial”, declarou o presidente brasileiro.
Questionado a respeito da possibilidade de um conflito global desse porte, Lula afirmou que, enquanto persistirem atitudes de países que se julgam no direito de agir militarmente contra outros, não é possível descartar o risco:
“Se continuarem achando que podem levantar de manhã e atirar contra qualquer um, ela pode acontecer”.
Lula manifestou repúdio ao agravamento do bloqueio energético a Cuba, imposto pelos Estados Unidos, e lembrou que o embargo econômico já perdura por quase 70 anos. O presidente brasileiro classificou Cuba como um país de grande valor para o Brasil e demonstrou preocupação com a manutenção das restrições.
“Não tem explicação um bloqueio durante 70 anos. Ou seja, se as pessoas que não gostam de Cuba, que não gostam do regime cubano, têm uma preocupação com o povo cubano, por que essas pessoas não têm uma preocupação com Haiti? Que não tem o regime comunista, por que não tem?”, questionou Lula.
O presidente também mencionou a situação do Haiti, país que enfrenta grave crise social e econômica há décadas, com gangues armadas dominando extensas áreas da capital Porto Príncipe.
Lula argumentou que Cuba necessita de oportunidades que permitam a melhoria de suas condições internas e criticou o isolamento imposto ao país caribenho.
“Como é que pode sobreviver um país que está comprometido a não receber alimento, a não receber combustível, a não receber energia?”, questionou o presidente brasileiro sobre as consequências do bloqueio a Cuba.
Em relação à Venezuela, Lula declarou que a posição de seu governo era favorável à realização das eleições em julho de 2024 e que o resultado desse processo deveria ser respeitado, possibilitando o restabelecimento da paz no país vizinho.
“[O que não dá é] os EUA acharem que eles podem administrar a Venezuela”, acrescentou Lula, reforçando o princípio de autodeterminação dos povos.
No tema da taxação americana sobre exportações do Brasil, implementada entre abril e agosto de 2025, Lula relembrou diálogo com Donald Trump em encontro anterior, defendendo que divergências ideológicas não devem guiar as relações entre chefes de Estado. Para Lula, os interesses nacionais das duas nações devem ser o foco das discussões.
“Eu nunca pedirei para ele concordar ideologicamente comigo, como eu também não concordo com ele. Dois chefes de Estado não têm que pensar ideologicamente. Eu tenho que pensar como chefe de Estado. Quais são os interesses do meu país com relação aos Estados Unidos e quais são os interesses deles com relação ao meu país?”, finalizou Lula.
Após negociações realizadas entre os governos de Brasília e Washington em novembro de 2025, os Estados Unidos retiraram a tarifa de 40% que incidia sobre diversos produtos brasileiros, incluindo café e carne. Em fevereiro do ano seguinte, a Suprema Corte dos Estados Unidos revogou o aumento tarifário estabelecido por Trump para dezenas de países após solicitação de empresas americanas afetadas pelas decisões comerciais.