O presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em Hannover, na Alemanha, nesta segunda-feira (20), onde se reuniu com o chanceler federal Friedrich Merz para discutir temas de cooperação bilateral e questões internacionais. Essa foi a terceira ocasião em que ambos se encontraram desde 2023.
Durante a passagem por território alemão, Lula também participou da abertura da Hannover Messe, considerada a maior feira industrial global, cuja edição deste ano destacou o Brasil. Em outro compromisso, o presidente brasileiro se encontrou com empresários dos dois países, enfatizando as oportunidades no setor de biocombustíveis.
No âmbito da agenda oficial, Lula e Merz assinaram acordos de cooperação envolvendo as áreas de defesa, inteligência artificial, tecnologias quânticas, infraestrutura, economia circular, eficiência energética, bioeconomia, pesquisa oceânica e pesquisa climática. A Alemanha, atualmente terceira maior economia do mundo, ocupa o quarto lugar como principal parceiro comercial do Brasil, registrando intercâmbio de cerca de 21 bilhões de dólares em 2025 em bens e serviços e investindo diretamente mais de 40 bilhões de dólares em território brasileiro.
Após a reunião bilateral, os dois líderes concederam entrevista à imprensa. Eles abordaram o cenário de instabilidade internacional provocado por conflitos armados e ameaças recentes, especialmente no Oriente Médio e em Cuba.
Lula reiterou que não há justificativa para o atual conflito no Oriente Médio. Segundo ele, a Organização das Nações Unidas (ONU) tem sido omissa ao não promover iniciativas diplomáticas que possam restaurar a estabilidade mundial.
"A prevalência das forças sobre o direito é a mais grave ameaça à paz e à segurança internacional. Estamos profundamente preocupados com os riscos da retomada do conflito no Irã e da escalada no Líbano. A sobrevivência do Estado Palestino e do seu povo segue ameaçada", afirmou Lula.
O presidente brasileiro também mencionou a guerra na Ucrânia, ressaltando a dificuldade de alcançar um acordo de paz. Ele criticou a inação de atores internacionais diante desses conflitos.
"Entre a ação dos que provocam guerra e a omissão dos que preferem se calar, a ONU está mais uma vez paralisada. Brasil e Alemanha defendem há décadas uma reforma que recupere a legitimidade do Conselho de Segurança", declarou Lula.
Ao ser questionado por jornalistas, Friedrich Merz comentou ter solicitado uma reunião extraordinária nas Nações Unidas para debater as medidas possíveis em resposta aos conflitos.
"A reabertura do Estreito de Ormuz tinha sido anunciada e feita, e depois fecharam de novo. Por isso, os preços [do petróleo] aumentaram de novo. Nosso apelo vai para o Irã, de cessar-fogo. Nosso apelo vai também para os EUA para que procurem soluções diplomáticas. As implicações e consequências da guerra não atingem apenas o Oriente Médio, mas pode levar a uma desestabilização política", afirmou Merz.
O chanceler federal destacou que a estabilidade energética global depende do fim imediato dos conflitos, reforçando a necessidade de soluções que transcendam a região.
Durante a coletiva, os líderes também comentaram sobre possíveis ameaças de intervenção militar dos Estados Unidos em Cuba, mencionando declarações do presidente norte-americano Donald Trump.
Merz declarou que a Alemanha não identifica justificativa legal para qualquer tipo de intervenção no país caribenho.
"Não vemos que exista algum tipo de perigo para países terceiros, então não sei porque seria necessário haver uma intervenção", disse o chanceler alemão, enfatizando novamente a importância de alternativas diplomáticas.
"Poder se defender não quer dizer poder interferir em outros países que tem sistemas políticos que não nos agradam", complementou Merz.
Lula reafirmou sua oposição a intervenções unilaterais, seja em Cuba, Venezuela, Ucrânia, Irã ou na Faixa de Gaza, defendendo o respeito à soberania e à integridade dos países.
"Sou contra a falta de respeito à integridade territorial das nações. Eu sou contra qualquer país do mundo se meter a ter ingerência política sobre como uma sociedade deve se organizar ou não", declarou Lula.
O presidente do Brasil ainda criticou o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba há quase sete décadas.
"Se a gente continuar a acreditar que deve prevalecer a lei do mais forte, isso já aconteceu outras vezes no mundo e não deu certo", afirmou Lula.
Lula e Merz comemoraram a aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que começará a valer provisoriamente a partir de maio. O chanceler alemão destacou que o Brasil sempre defendeu o avanço desse acordo e que sua implementação permitirá o fortalecimento da cooperação em tecnologia, inteligência artificial, economia circular, agricultura e energia.
Na avaliação de Lula, o início da vigência do acordo abre caminho para uma colaboração mais ampla, abordando temas como proteção dos direitos humanos, preservação ambiental e valorização dos trabalhadores, ultrapassando o simples livre comércio.
Apesar dos avanços, Lula criticou medidas unilaterais da União Europeia relacionadas à contabilização das emissões de carbono, que acabam ignorando a baixa emissão do setor produtivo brasileiro, fundamentado em fontes renováveis.
O presidente brasileiro destacou que apenas a reciprocidade nas concessões é capaz de sustentar o acordo. Ele questionou a adoção de critérios europeus que, segundo ele, distorcem a realidade e destoam das normas multilaterais, mesmo reconhecendo a legitimidade de políticas que visem descarbonização, proteção ambiental e desenvolvimento industrial.
O chanceler Merz demonstrou interesse em ampliar a cooperação com o Brasil na área de minerais essenciais para tecnologias modernas, defesa e transição energética, incluindo baterias, painéis solares e turbinas. Segundo ele, o Brasil está entre os países com as maiores reservas desses materiais, considerados críticos devido ao risco de escassez ou concentração em poucos fornecedores.
"Estamos aprofundando nossa relação na área de matéria-prima crítica e isso e uma base central para desenvolvermos as tecnologias do futuro", ressaltou Merz.
Lula afirmou que o Brasil pretende ir além da exportação dos minerais, buscando agregar valor ao atrair cadeias de processamento e desenvolver tecnologias em território nacional.
"Nossas reservas também nos tornam atores incontornáveis no debate sobre minerais críticos. Queremos atrair cadeias de processamento para o território brasileiro, sem fazer exportações excludentes. A colaboração em setores intensivos em tecnologia é uma prioridade para um país que não quer se limitar a ser um mero exportador de commodities".
Ambos os dirigentes enfatizaram a relevância dos biocombustíveis como instrumento de descarbonização do transporte e destacaram o potencial do Brasil. Lula afirmou que a segurança energética depende da diversificação de fontes e que a recente elevação nos preços do petróleo evidencia a necessidade de a Europa superar resistências ideológicas aos biocombustíveis.
"Não existe segurança energética sem diversificação. A recente alta nos preços do petróleo mostra que está mais do que na hora da Europa superar sua resistência ideológica aos biocombustíveis. Eles são uma opção barata, confiável e eficiente para descarbonizar o setor de transporte. Com o conhecimento acumulado ao longo de cinco décadas, o Brasil é capaz de produzir etanol e biodiesel sem comprometer a produção de alimentos e as áreas de florestas", declarou Lula.
Merz, por sua vez, destacou avanços do Brasil nesse setor, citando a presença de um caminhão movido a biocombustível na feira de Hannover como exemplo da possibilidade de aprendizado e cooperação tecnológica entre os dois países.