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Itaipu avalia energia solar para dobrar geração e testa hidrogênio e biogás

Complexo investe em painéis solares flutuantes, pesquisa com hidrogênio verde e amplia geração de biogás com resíduos orgânicos.

21/04/2026 às 22:52
Por: Redação

O reservatório de Itaipu, localizado na fronteira entre Brasil e Paraguai, na Região Sul, possui um perímetro de aproximadamente 1.300 quilômetros quadrados. Essa área se estende por cerca de 170 quilômetros, desde a barragem até o extremo oposto, apresentando uma largura média de 7 quilômetros entre as margens direita e esquerda.

 

A usina hidrelétrica, que utiliza a água represada do Rio Paraná para movimentar turbinas, atinge uma capacidade de geração de até 14 mil megawatts de energia elétrica. Além desse potencial hidrelétrico, técnicos brasileiros e paraguaios têm conduzido, desde o final do ano anterior, uma experiência que consiste na instalação de painéis solares diretamente sobre o espelho d’água do reservatório.

 

Em uma área de menos de 10 mil metros quadrados, situada a 15 metros de uma das margens no lado paraguaio, onde a profundidade da água chega a aproximadamente 7 metros, foram colocados 1.584 módulos fotovoltaicos flutuantes. Essa estrutura resulta em uma capacidade de geração de 1 megawatt-pico (MWp), suficiente para abastecer 650 residências. Atualmente, toda essa energia é utilizada para fins internos, sem integração ao sistema hidrelétrico ou comercialização externa.

 

O projeto, chamado de "ilha solar", tem como função principal atuar como um laboratório experimental, avaliando questões como a influência dos painéis no ambiente aquático, possíveis alterações no comportamento de peixes e algas, variações na temperatura da água, impacto dos ventos no rendimento dos módulos, além da estabilidade física dos flutuadores e do sistema de ancoragem.

 

"Se falarmos em um potencial bem teórico, uma área de 10% do reservatório, coberta com placas solares, seria o mesmo que outra usina de Itaipu, em termos de capacidade de geração. Claro que isso não está no planos, pois seria uma área muito grande e depende ainda de muitos estudos, mas mostra o potencial dessa pesquisa", apontou o superintendente de Energias Renováveis da Itaipu Binacional, Rogério Meneghetti.


 

As estimativas iniciais apontam que, para atingir 3 mil megawatts de geração solar — o que corresponde a cerca de 20% da capacidade instalada da hidrelétrica —, seriam necessários ao menos quatro anos de obras para instalação dos painéis.

 

O investimento realizado foi de 854,5 mil dólares, equivalente a aproximadamente 4,3 milhões de reais, segundo a cotação atual. As instalações foram executadas por um consórcio binacional formado pela empresa brasileira Sunlution e pela paraguaia Luxacril, vencedoras do processo licitatório.

 

Iniciativas em hidrogênio verde e baterias

 

A diversificação energética na Itaipu Binacional não se limita ao campo da energia solar. O complexo investe em projetos inovadores com hidrogênio verde e no desenvolvimento de sistemas de baterias.

 

Essas frentes de pesquisa são conduzidas no Itaipu Parquetec, ecossistema de inovação e tecnologia criado em 2003 na cidade de Foz do Iguaçu, Paraná. O local reúne instituições de ensino, empresas públicas e privadas, tendo formado mais de 550 mestres e doutores em diferentes áreas.

 

No Centro Avançado de Tecnologia de Hidrogênio, instalado no Parquetec, o foco está na obtenção do chamado hidrogênio verde, obtido sem produção de gás carbônico, gás responsável pelo efeito estufa e pelo aquecimento global. O método utilizado é a eletrólise da água, que separa os elementos da molécula de H2O por meio de processos automatizados em laboratório.

 

O hidrogênio verde pode ser aplicado de forma sustentável em diversos segmentos industriais, como siderurgia, indústria química, petroquímica, agrícola e de alimentos, além de poder atuar como combustível para os setores de energia e transporte. No complexo de Itaipu, existe uma planta dedicada ao desenvolvimento de projetos-piloto relacionados ao hidrogênio verde.

 

De acordo com Daniel Cantani, gerente do Centro de Tecnologia de Hidrogênio do Itaipu Parquetec, o objetivo é atender tanto projetos científicos quanto demandas da indústria nacional. Ele destaca que empresas brasileiras têm desenvolvido veículos, como carretas e ônibus movidos a hidrogênio, e utilizam o centro para testes e validações desses protótipos.

 

Durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém, um barco movido a hidrogênio, fruto de pesquisa realizada no Itaipu Parquetec, foi apresentado para atuar na coleta seletiva nas comunidades ribeirinhas próximas à capital paraense.

 

Outro projeto em andamento no Parquetec é um centro de gestão energética voltado para pesquisas em desenvolvimento de células e protótipos de fabricação e reaproveitamento de baterias. Esse sistema é projetado para armazenamento de energia em aplicações estacionárias, atendendo empresas e estações fixas, principalmente aquelas que necessitam de reserva estratégica de energia.

 

Produção de biogás e combustíveis sustentáveis

 

Além das fontes já citadas, a Itaipu Binacional também investe na geração de biogás, aproveitando resíduos orgânicos provenientes de restaurantes distribuídos por diferentes setores da usina, bem como materiais confiscados em operações da Polícia Rodoviária Federal e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, durante fiscalizações de fronteira.

 

Esses resíduos, em vez de serem depositados em aterros, passam por um processo de biodigestão em grandes tanques, resultando na produção de biogás e biometano. O combustível gerado é utilizado para abastecer veículos que circulam internamente pelas dependências de Itaipu, por meio de cilindros de gás instalados nos automóveis.

 

No último dia 13 de abril, foi reinaugurada a Unidade de Demonstração de Biocombustíveis, localizada no complexo de Itaipu e gerida pelo Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), empresa criada pela própria usina para desenvolver soluções em combustíveis limpos.

 

Segundo dados da usina, ao longo de quase nove anos de funcionamento, já foram processadas mais de 720 toneladas de resíduos orgânicos, quantidade suficiente para gerar biometano que possibilitou percorrer cerca de 480 mil quilômetros — distância equivalente a doze voltas completas ao redor do planeta Terra.

 

A unidade de demonstração também conduz, de forma experimental, a produção de bio-syncrude, um óleo sintético que pode ser utilizado na fabricação de SAF (sigla para Sustainable Aviation Fuel, Combustível Sustentável de Aviação).

 

"Eu acredito que nos próximos 10 anos, nós vamos ver muito sobre os combustíveis avançados. Vamos ouvir muito sobre o hidrogênio, sobre o SAF, inclusive por conta da lei de combustíveis futuro, que vem aí com mandato. Biometano e SAF são os assuntos do momento", destaca Daiana Gotardo, diretora técnica do CIBiogás.


 

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