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Rio celebra São Jorge com fé e luta por tolerância religiosa

Madrugada de alvorada e missas reúne devotos no Centro e Quintino, reforçando sincretismo e memória em data que é feriado estadual desde 2008.

23/04/2026 às 20:52
Por: Redação

Milhares de devotos se reuniram na Avenida Presidente Vargas, no centro da capital fluminense, para as celebrações do Dia de São Jorge nesta quarta-feira (23), em uma manifestação de fé que se estendeu pela madrugada. A comemoração, uma das mais significativas da cidade, ganhou um tom especial de resistência e memória, com a presença de figuras como a ex-ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco.

 

A data, reconhecida como feriado em todo o estado do Rio de Janeiro desde 2008, teve sua importância reforçada em 2019, quando São Jorge foi oficialmente declarado padroeiro da cidade. O santo guerreiro, cuja imagem tradicionalmente o retrata vencendo um dragão, é venerado como símbolo de proteção, coragem e superação de desafios.

 

As atividades no Campo de Santana, em frente à Biblioteca Parque Estadual, começaram antes do amanhecer. A tradicional alvorada, marcada para as 5h, atraiu um grande público, que em seguida participou da missa solene. A celebração religiosa foi conduzida pelo padre Wagner Toledo, que recebeu os fiéis com palavras de encorajamento.

 

Cada um aqui tem a sua batalha. Cada coração aqui conhece um peso. Cada vida aqui já enfrentou ou está enfrentando o dragão.

A dimensão cultural e o forte sincretismo religioso da festividade foram sublinhados pela cantora Azula Cristina Pereira, que destacou a ligação do santo com as tradições de matriz africana.

 

Venho todo ano [para a celebração de São Jorge]. Nem sempre consigo acordar para a madrugada, então estou feliz de estar aqui hoje. Para mim, que faço parte das religiosidades africanas, a gente cultua São Jorge junto com Ogum. Tudo está vinculado ao trabalho, à luta.

O sincretismo é um pilar fundamental da devoção a São Jorge no Brasil. Em religiões como a umbanda e o candomblé, o santo é comumente associado a Ogum, o orixá guerreiro que representa o ferro e as batalhas. Em determinadas regiões, ele também pode ser relacionado a Oxóssi. Essa prática remonta ao período da escravidão, quando os africanos utilizavam a associação de seus orixás a santos católicos como forma de preservar suas crenças e tradições.

 

A pedagoga e produtora cultural Gaby Makena compartilhou sua preparação pessoal para a celebração anual.

 

Começa no dia anterior, com oração, organização, roupa vermelha. Chegar cedo, acompanhar a missa e sair com esperança. Eu venho todo ano, no mesmo lugar, para alcançar minhas vitórias.

Emoção e Luta contra a Intolerância

 

Um dos momentos mais tocantes da alvorada foi a participação da ex-ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco. Visivelmente emocionada, ela recordou sua irmã, Marielle Franco, e a promessa que fizeram juntas.

 

Para mim, tem um significado totalmente pessoal e emocional. Eu vim com a Marielle em 2016, no ano em que ela foi eleita [vereadora] e, desde então, venho pagar a promessa que fizemos naquele dia.

Anielle Franco enfatizou que a celebração de São Jorge representa um reencontro simbólico com a irmã, definindo a data como um período de emoção, união familiar, devoção e, sobretudo, resistência.

 

É como se eu estivesse hoje abraçando ela de novo. São Jorge é um momento de emoção, de família, de devoção e de resistência.

Ela também reforçou a importância de combater o racismo e a intolerância religiosa, destacando que a devoção a São Jorge é um exemplo de união entre diferentes credos, um modelo para a construção de um país mais tolerante.

 

A gente tem lutado muito para que a intolerância e o racismo religioso acabem. São Jorge reúne diferentes religiões com fé e devoção e mostra o que o país precisa construir.

Além das festividades no centro, o bairro de Quintino, na zona norte, também se tornou um polo de concentração para milhares de devotos, com sua própria tradicional alvorada. A programação do dia prevê a realização de missas a cada hora, garantindo um fluxo constante de fiéis que se dirigem aos locais de celebração para orar, cumprir promessas e participar ativamente dos ritos religiosos.

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