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Crise no BRB expõe funcionários e aumenta pressão por solução rápida

Funcionários do BRB relatam pressão, clientes buscam informações e governo promete solução para crise desencadeada por fraudes envolvendo o Banco Master.

16/04/2026 às 20:24
Por: Redação

O escândalo de fraudes financeiras envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, revelado pela Operação Compliance Zero da Polícia Federal em novembro de 2025, colocou em xeque a credibilidade da instituição pública do Distrito Federal e atingiu profundamente o dia a dia dos seus quase cinco mil empregados.

 

Segundo Daniel Oliveira, diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal e funcionário do BRB desde 2008, todos os trabalhadores e a sociedade estão arcando com as consequências de uma decisão política voltada para salvar o Banco Master. Ele afirmou que o sindicato tem presenciado relatos de um ambiente de trabalho mais tenso, sobretudo entre analistas que participaram das tratativas com a instituição do banqueiro Daniel Vorcaro, preso desde o início de março, e que agora prestam esclarecimentos a policiais federais e auditores.

 

Esses funcionários, por terem acesso às discussões com o Master, são considerados peças-chave para o avanço das investigações. As negociações resultaram na aquisição de bilhões de reais em créditos do banco de Vorcaro e na intenção do BRB de adquirir parte do Master por dois bilhões de reais. No entanto, o Banco Central rejeitou a compra dois meses antes de decretar a liquidação extrajudicial da instituição privada e da deflagração da operação policial.

 

O clima de crise entre os empregados concursados, terceirizados e estagiários é inédito na história do banco, fundado em 1964. Desde o afastamento do então presidente Paulo Henrique Costa (PHC) por decisão judicial, em razão de suspeitas de envolvimento em fraudes, clientes têm procurado as agências para obter informações sobre a estabilidade financeira do banco e o risco para seus investimentos. Oliveira explicou que cabe aos funcionários tranquilizar os clientes, apesar das incertezas que também os afligem.

 

“Nossos empregos também estão em jogo. Somos cobrados a dar satisfações sobre fatos que escapam da nossa alçada. Quem atende ao público tem que estar o tempo todo atento ao noticiário para poder transmitir informações que, a nosso ver, são de responsabilidade do banco e do GDF”, ponderou Oliveira.


 

De acordo com o sindicalista, sentimentos de indignação e apatia predominam entre parte dos funcionários, especialmente porque, segundo ele, alguns empregados já haviam apontado indícios de irregularidades nas negociações com o Master muito antes da operação policial. O sindicato também comunicou, em novembro de 2024, ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários sua preocupação com a primeira compra e venda de carteiras de créditos do Master, considerando-a prejudicial ao BRB.

 

Impacto sobre aposentados, planos e ativos do BRB

Além dos funcionários da ativa, cerca de três mil aposentados do BRB sentem o reflexo da crise, pois seus planos de saúde e previdência complementar dependem da estabilidade financeira do banco. A Previdência BRB garantiu, em mensagem divulgada em seu site, que possui um patrimônio superior a 4,39 bilhões de reais, que é administrado de forma autônoma e segregada dos recursos de patrocinadores e empresas do conglomerado.

 

O BRB, com mais de seis décadas de operação, destaca que administra mais de 80 bilhões de reais em ativos de mais de dez milhões de clientes, o que, segundo a instituição, permitiria absorver eventuais prejuízos mediante aportes de curto prazo. Entretanto, Oliveira alertou que a demora em apresentar uma solução pode afastar investidores e prejudicar ainda mais o patrimônio do banco. Ele também criticou a falta de informações, apontada como uma das razões para o rebaixamento da classificação de risco do BRB pela agência Moody's.

 

A agência considerou a ausência de clareza sobre os impactos da compra de ativos do Master e a falta de um plano concreto de recuperação como fatores determinantes para o rebaixamento, indicando a necessidade de uma injeção significativa de capital para garantir a capacidade do BRB de honrar seus compromissos.

 

O banco tem se manifestado sobretudo por meio de comunicados oficiais e orientou dirigentes e colaboradores a não conceder entrevistas sobre a situação. No ambiente virtual, uma campanha institucional destaca que o BRB permanece "sólido, estável e em pleno funcionamento". O novo presidente, Nelson de Souza, substituto de PHC, não compareceu à Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Distrito Federal, justificando que só poderá se pronunciar após conclusão das auditorias sobre a compra de créditos do Master e análise do balanço de 2025 pelos acionistas.

 

Essa ausência gerou descontentamento entre deputados, levando à sua convocação obrigatória para prestar esclarecimentos em data a ser definida. Os parlamentares reclamaram da falta de informação e ressaltaram o direito da população de saber a real situação do BRB.

 

Risco de privatização e paralisação de projetos

Oliveira avaliou que a repercussão negativa na imprensa contribui para fortalecer argumentos favoráveis à privatização do banco, o que poderia resultar na venda de ativos a grandes instituições financeiras por valores inferiores ao mercado. Ele destacou o risco de grandes bancos assumirem, a baixo custo, contas públicas e empresariais atualmente sob gestão do BRB.

 

O avanço das investigações e da crise suspendeu projetos estratégicos, como a expansão do banco para outros estados, frustrando funcionários interessados em transferências e cerca de 400 aprovados no concurso de 2022, cuja convocação está condicionada à resolução do impasse. A expansão, promovida durante a gestão de PHC, incluiu a abertura de agências em cidades como João Pessoa e nos estados da Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, com instalação de correspondentes bancários em outras regiões.

 

Essas iniciativas envolveram ainda patrocínios esportivos e a parceria com o Flamengo, que originou o Nação BRB Fla, banco digital com quase quatro milhões de clientes. Mesmo antes da tentativa de compra do Master, a expansão havia perdido força e foi interrompida após a operação policial.

 

Recentemente, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão, que assumiu o cargo após a saída de Ibaneis Rocha em março, reconheceu que a diretoria do BRB avalia o fechamento de agências em outras regiões. Ela enfatizou que a decisão cabe à diretoria, mas garantiu que o banco deve concentrar esforços em sua missão original de instituição regional voltada ao atendimento da população local e à oferta de crédito no DF.

 

Celina Leão também reafirmou que o BRB não corre risco de falência e que o banco está cumprindo as exigências do Banco Central. Ela prometeu apresentar uma solução para a crise em até 30 dias, prazo considerado inadequado por Daniel Oliveira, que defendeu a necessidade de aporte financeiro imediato para evitar o agravamento da situação.

 

O sindicalista salientou que a restauração da credibilidade do BRB requer apoio financeiro do Governo do Distrito Federal, de forma a preservar o controle público distrital da instituição, responsável por promover o desenvolvimento local e executar políticas públicas como os cartões de gás, creche, material escolar e o sistema de bilhetagem automática para ônibus e metrô.

 

Advertências sobre transparência e impacto sistêmico

O economista e professor da Universidade de Brasília, César Bergo, apontou que a não publicação do balanço de 2025 e de outros relatórios contábeis amplia a desconfiança em relação ao banco, além de acarretar multas diárias superiores a cinquenta mil reais impostas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários.

 

Bergo ressaltou que a falta de transparência compromete a segurança de correntistas e investidores e impacta todo o sistema financeiro. Ele reforçou que o BRB foi vítima de um golpe que gerou crise não apenas financeira, mas também de reputação, e criticou a falta de clareza nas informações divulgadas pelas autoridades do GDF.

 

“O BRB foi alvo de um golpe que lançou o banco em uma crise não só financeira, mas, principalmente, de reputação. E nem os nomes dos dirigentes que estão falando pelo banco foram aprovados pela assembleia? A crise é de confiança e [fontes do GDF] divulgam à imprensa números que não batem, contas que não fecham, de uma maneira que nenhum acionista, economista ou contador entende?”, questionou o economista.


 

Possibilidades para retomada da estabilidade

De acordo com Bergo, existem quatro cenários possíveis para superar a crise: a capitalização do banco por meio de novos aportes dos sócios, principalmente com recursos do GDF; a obtenção de empréstimos junto ao Fundo Garantidor de Créditos ou a outras instituições, ainda que a custos elevados; a federalização do BRB, absorvendo-o por um banco federal, como Banco do Brasil ou Caixa, similar ao que ocorreu com o Besc em 2008; ou, em último caso, a privatização.

 

“A federalização eu não creio que o Palácio do Planalto queira fazer, pois implicaria levar para o âmbito federal um problema que é do GDF. De qualquer forma, seja lá qual for a solução, duas coisas são certas: uma é que salvar o BRB é melhor que deixá-lo quebrar. Outra, é que qualquer que seja a decisão, ela deve ser anunciada rapidamente”, finalizou Bergo.


 

O BRB foi contactado para comentar a situação e fornecer esclarecimentos adicionais, mas não respondeu até a publicação. Também não houve retorno da defesa do ex-presidente Paulo Henrique Costa. A governadora Celina Leão, em nota, informou que os fatos envolvendo a prisão preventiva do ex-dirigente estão sob análise do Judiciário, que é responsável pela apuração e julgamento, e reforçou que todas as providências cabíveis foram tomadas em colaboração com as autoridades.

 

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