Trabalhadores que atuam sob o regime de seis dias trabalhados para um de descanso relatam expectativas de que, com a possível aprovação de mudanças na legislação, possam desfrutar de mais tempo com a família, realizar tarefas domésticas, realizar passeios ou até mesmo fazer pequenas viagens. A discussão sobre a concessão de um segundo dia de folga semanal movimenta diversos setores e domina as conversas em ambientes de trabalho, especialmente diante da tramitação de diferentes propostas no Congresso Nacional.
O fim da escala 6x1 tem sido tema central das manifestações trabalhistas organizadas em todo o país por ocasião do Dia do Trabalhador, em 1º de maio. Entre os projetos em análise no Congresso, estão Propostas de Emenda à Constituição (PECs) e um projeto de lei que tratam da redução da carga horária e do aumento do tempo de descanso semanal.
Darlen da Silva, balconista em uma farmácia no Rio de Janeiro, trabalha há 15 anos nesse regime. Ela relata que sua única folga semanal costuma ser tomada por tarefas domésticas e obrigações familiares, o que impede o descanso necessário. "Tenho duas filhas, então para mim é muito corrida a minha folga. Tenho que fazer tudo dentro de casa, lavar roupa, fazer mercado. Não tenho descanso. Venho trabalhar mais cansada ainda no outro dia."
Segundo Darlen, a discussão sobre a possível mudança é frequente entre os colegas. "Todo mundo tá esperando sair essa regra nova aí". Ela planeja usar um dia a mais de folga para resolver os afazeres domésticos e o outro para descanso ou atividades de lazer. No entanto, manifesta preocupação com a aplicação da nova legislação: espera que, caso seja aprovada, a lei seja cumprida, com respeito ao limite de 40 horas de trabalho semanais. Darlen também relata que alguns colegas já passaram a ter dois dias de descanso, porém, com aumento da jornada diária para 11 horas. "Meus colegas estão trabalhando 11 horas por dia para poder entrar nesse esquema de cinco por dois. Entendeu? Então, acaba que não compensa. Para mim, não compensa. Se você trabalhar 11 horas cinco dias na semana, você vai ficar mais cansado ainda".
Alisson dos Santos, garçom de 33 anos que atua há dez anos no setor de restaurantes do Rio de Janeiro, também segue a escala 6x1. Ele afirma que, normalmente, utiliza suas folgas para resolver questões pessoais ou dos filhos, como compromissos escolares e médicos, e que raramente consegue aproveitar o dia para descansar. "A gente sempre tem que resolver alguma coisa da criança na escola, tem médico, sempre tem alguma coisinha para você fazer. Então, acaba não rendendo o seu dia de descanso. Sempre tem que fazer as coisas de casa."
Com um segundo dia livre, Alisson acredita que seria possível, por exemplo, organizar as tarefas domésticas em uma data e dedicar a outra ao lazer em família. Ele avalia que, assim, haveria até possibilidade para viagens curtas.
“Num dia você organiza as coisas de casa e, no outro dia, consegue passear com a família. Ou, se você vai direto do trabalho, consegue organizar até uma viagem. Com um dia só não, você não consegue fazer nada.”
No Maranhão, Izabelle Nunes, cabeleireira de 26 anos, também trabalha seis dias por semana. Apesar de não acompanhar de perto o debate no Congresso e de o tema não ser comum em seu ambiente de trabalho, ela se mostra favorável à iniciativa, defendendo que todos os trabalhadores deveriam ter ao menos dois dias de folga semanais.
“Acho que todos nós trabalhadores temos o direito de ter no mínimo dois dias de folga. Cuidar dos nossos estudos, saúde, lazer, cultura e trabalhando nessa escala a gente só se acaba.”
Izabelle destaca que, com mais tempo livre, conseguiria dedicar-se mais à família e à rotina doméstica. "Faria tudo que desse. Ficaria mais com minha família."
Karine Fernandes, professora de 36 anos, acompanha o debate pelas redes sociais e, embora não atue sob a escala 6x1, considera importante a discussão sobre a jornada de trabalho. Ressalta que a pauta influencia diretamente a qualidade de vida das famílias, especialmente das crianças que podem conviver mais tempo com seus responsáveis.
“Como mãe, penso em como isso influencia a vivência de crianças que podem ter mais tempo de qualidade com suas mães e pais e como isso tem resultado direto no fortalecimento dos adultos que irão se tornar.”
Diversas propostas legislativas que tratam da alteração da jornada de trabalho seguem em tramitação. Entre elas está a PEC 221/19, apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes, que pretende diminuir a carga semanal de 44 para 36 horas, com uma transição prevista para ocorrer ao longo de dez anos. Outra proposta, a PEC 8/25, apresentada pela deputada Erika Hilton, estabelece regime de quatro dias de trabalho por semana, mantendo o teto de 36 horas no período.
Além dessas PECs, tramita um projeto de lei com urgência constitucional encaminhado pelo presidente da República ao Congresso Nacional, que visa extinguir a escala 6x1 e fixar a jornada semanal em 40 horas. Conforme o regimento, propostas com urgência constitucional devem ser votadas em até 45 dias, sob pena de trancamento da pauta do Plenário da Câmara dos Deputados.