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Inhotim inaugura três obras de arte para celebrar 20 anos

O maior museu a céu aberto da América Latina, em Brumadinho (MG), adiciona Contraplano, Dupla Cura e Tororama ao seu vasto acervo de arte e natureza.

26/04/2026 às 19:39
Por: Redação

O Instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, Minas Gerais, iniciou as celebrações de seu 20º aniversário no último sábado, dia 25 de abril. A programação especial foi marcada pela abertura de três novas obras de arte, enriquecendo ainda mais o acervo do considerado maior museu a céu aberto da América Latina. As instalações inauguradas são: Contraplano, da artista Lais Myrrha; Dupla Cura, de Dalton Paula; e Tororama, assinada por Davi de Jesus Nascimento. O espaço, reconhecido por sua vasta coleção de trabalhos de criadores nacionais e internacionais, é também um santuário de rica flora.

 

De acordo com a diretora artística do Inhotim, Júlia Rebouças, as novas criações estabelecem uma interligação com a essência do instituto, que se dedica a conciliar arte, natureza e educação. Ela ressaltou que as obras, cada uma à sua maneira, refletem o território do museu, a relação dos visitantes com o ambiente e questões contemporâneas importantes. Além disso, as instalações têm a capacidade de revisitar períodos da história recente que frequentemente permanecem ocultos.

 

"São trabalhos que se articulam com esse enorme texto que está sendo posto aqui há 20 anos. Cada obra é uma ideia nova que a gente adiciona a esse texto que vai escrever a narrativa do Inhotim", completa a diretora artística.


 

Júlia Rebouças também enfatizou que os trabalhos recém-adicionados dialogam de forma significativa com o acervo já consolidado ao longo das duas décadas de existência do instituto.

 

A obra Contraplano

 

Posicionada em um dos pontos mais elevados de Inhotim, a monumental escultura Contraplano, criada por Lais Myrrha, busca estabelecer um diálogo com o icônico edifício projetado por Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. A estrutura, composta por lâminas de concreto armado e colunas de aço inoxidável, materiais comumente empregados na arquitetura moderna, oferece uma vista panorâmica. Ela se projeta sobre vastas áreas dos jardins do museu, a mata circundante e também sobre fragmentos de cavas de mineração situadas nas proximidades.

 

O título da obra sugere um espelhamento da paisagem, que foi profundamente alterada pelas atividades de mineração. A artista Lais Myrrha, natural de Minas Gerais, expressou seu desejo de incentivar uma reflexão sobre a complexa interação entre arquitetura, paisagem, a passagem do tempo, a natureza, as formações montanhosas e a mineração. Ela também questionou até que ponto as inovações tecnológicas modernas influenciaram esses modelos construtivos, destacando que a percepção da topografia e das cavas de mineração na obra dependerá do repertório individual de cada visitante.

 

A psicóloga Paola Prates, de 29 anos, residente em Belo Horizonte, que visitava Inhotim pela quarta vez, teve seu primeiro contato com a arte de Lais Myrrha. Ela considerou a obra "muito interessante" devido à sua localização próxima à área de mineração, o que, em sua opinião, "dialoga muito com isso". Paola observou que a instalação proporciona uma sensação de conforto, frescor e acolhimento, mas, ao mesmo tempo, ao contemplar a mineração, os visitantes são lembrados do impacto ambiental que essa atividade pode causar.

 

A exposição Dupla Cura

 

Na Galeria Mata, uma das edificações mais antigas do Instituto Inhotim, encontra-se a exposição de longa duração Dupla Cura, de Dalton Paula. Esta mostra apresenta aproximadamente 120 obras do artista brasiliense, que atualmente reside e desenvolve seu trabalho em Goiânia. Trata-se do mais extenso conjunto de suas criações já exibido em território nacional, abrangendo diversas mídias como pinturas, fotografias, vídeos e instalações. As peças exploram temas profundos como a ancestralidade, a memória e a valorização da rica cultura afro-brasileira.

 

A curadora Beatriz Lemos esclareceu que a denominação da exposição faz alusão ao "pacto espiritual que a permeia". Segundo Lemos, a dualidade presente no título, conectada à devoção a São Cosme e São Damião, reflete a compreensão de que o fortalecimento de um indivíduo está intrinsecamente ligado ao bem-estar coletivo.

 

Dalton de Paula revelou que um dos aspectos que mais o fascina é a meditação sobre a memória. Ele destacou que a exposição permite ao público observar obras de 1999, que abordam suas "questões iniciais", ao lado de criações mais recentes que demonstram um "aprofundamento" em sua trajetória artística. O artista descreveu a mostra como "uma espécie de oráculo" do passado, que oferece "possibilidades de presente e de futuro", e enfatizou a importância de apresentar seu trabalho ao público, especialmente às futuras gerações.

 

Marcos Soares, engenheiro de som de 40 anos, residente em Belo Horizonte, que já visitou Inhotim seis vezes, foi conferir as obras de Dalton Paula. Ele expressou grande apreço pelos desenhos e pinturas, elogiando a "expressão gráfica dele é bem rica" e considerando o "processo de construção da arte dele é bem interessante de acompanhar". Soares concluiu que a exposição "abre uma nova forma de vida que eu nunca teria a chance de vivenciar se não fosse vendo uma exposição como essa do Dalton".

 

A instalação Tororama

 

Próxima à obra Contraplano, a Galeria Nascente abriga a instalação Tororama, do artista Davi de Jesus Nascimento, que nasceu e reside em Pirapora, no norte de Minas Gerais. O espaço expositivo apresenta três pinturas e um vídeo, cuja gravação foi realizada nas Cavernas do Peruaçu, também localizadas em Minas Gerais. A instalação é enriquecida pela presença de carrancas esculpidas pelo Mestre Expedito, uma figura proeminente da arte popular, que havia interrompido sua produção de novas peças há uma década.

 

O curador Deri Andrade explicou que o nome da instalação, Tororama, é uma referência a uma expressão encontrada no conto A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa, que explora a conexão do protagonista com um curso d'água. Andrade salientou que o trabalho de Davi Nascimento estabelece uma profunda ligação com o Rio São Francisco, resultado de uma pesquisa focada em sua própria família, que tem uma relação íntima com o rio. Ele descreveu o projeto como "completamente imersivo", incorporando vídeo performance e uma paisagem sonora envolvente.

 

"A permissão do que eu faço vem por meio desse curso d'água que é o Rio São Francisco e da energia da minha mãe que morreu afogada em 2013", disse o artista. "Esse ambiente que criei é de onde eu venho, da comunidade à beira do rio, do meu pai pescador".


 

Davi Nascimento compartilhou que sua origem familiar é marcada por gerações de lavadeiras, pescadores, marceneiros e mestres carranqueiros. Ana Paula Vieira do Nascimento, de 36 anos, irmã de Davi, visitou a obra e sentiu-se transportada para as memórias de infância da família. Ela descreveu a vivência da família sempre "dentro do rio", identificando-se como "barranqueiros" e sentindo a forte presença da memória de sua mãe na exposição.

 

Sobre o Instituto Inhotim

 

Localizado no município de Brumadinho, a aproximadamente 60 quilômetros da capital mineira, Belo Horizonte, o Instituto Inhotim opera como uma organização sem fins lucrativos. Sua sustentabilidade é garantida por meio de doações, tanto de pessoas físicas quanto jurídicas – estas últimas, realizadas diretamente ou através das leis federal e estadual de Incentivo à Cultura –, além da receita gerada pela bilheteria e pela organização de eventos.

 

A concepção do instituto teve início na década de 1980, idealizada pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz, e concretizou-se com sua inauguração em 2006, em uma fazenda que possuía solo ferroso. A localização estratégica de Inhotim, entre os biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, aliada às paisagens exuberantes que se estendem por 140 hectares destinados à visitação, proporciona aos seus frequentadores uma vivência singular, que harmoniza arte e natureza.

 

O acervo do Inhotim é composto por cerca de 1.862 obras, criadas por mais de 280 artistas provenientes de 43 países distintos. Essas obras são apresentadas tanto em galerias internas quanto ao ar livre, inseridas em um Jardim Botânico que abriga mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, coletadas em todos os continentes.

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